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O artigo analisa as pesquisas já realizadas para avaliar procedimentos de higienização nas casas e escolas e avalia o uso do álcool gel, dos lenços desinfetantes e até lavar as mãos com água e sabão.
Em 2005, na sede de Boston, médicos publicaram o primeiro ensaio clínico de desinfetantes de mãos a base de álcool em casas. Durante cinco meses, metade dessas famílias ganharam desinfetante para as mãos e seguiram uma rigorosa rotina higiênica. Mas a propagação de infecções respiratórias nessas casas não mudou.
Um estudo da Universidade Columbia também não encontrou uma redução nas infecções comuns entre as famílias de cidades do interior, para as quais foram distribuídos gratuitamente sabonetes antibacterianos, detergentes e produtos de limpeza.
No mesmo ano, o epidemiologista da Universidade de Michigan, Allison Aiello recolheu dados sobre a higiene das mãos para o FDA (Food and Drug Administration) e apontou que três em cada quatro estudos mostraram que o álcool em gel não preveniu infecções respiratórias.
Então, em 2008, o grupo de Boston repetiu o estudo, desta vez em escolas de ensino fundamental e distribuiu gratuitamente lenços desinfetantes Clorox para as salas de aula. Mais uma vez, a taxa de infecções respiratórias manteve-se inalterada, embora a taxa de infecções gastrointestinais, que são menos comuns do que as infecções respiratórias diminuíram um pouco.
No Brasil, onde o consumo do álcool gel higienizador de mãos cresceu cerca de 70% nas vendas do ano passado e chegou a faltar em algumas cidades, o estudo ainda não foi comentado.
Veja abaixo o artigo completo publicado em 24/02/2010 no site http://www.slate.com
Como vender na Guerra Bacteriológica
ALCOOL EM GEL COMO “PURELL” PODE REALMENTE EVITAR QUE PESSOAS PEGUEM A GRIPE?
Por Darshak Sanghavi – Colunista da revista online slate.com
Postado http://www.slate.com/id/2245896/ em 24 de fevereiro de 2010
Nossas casas e locais de trabalho, dizem, estão tentando nos matar. Recentemente, um microbiologista da Universidade do Arizona chamado Charles Gerba, autor de centenas de trabalhos científicos sobre os micróbios caseiros, deu uma palestra aterrorizante na sede da FDA (Food and Drug Administration --órgão governamental que regula alimentos e medicamentos nos EUA) . Gerba - que tem um filho com o nome do meio “Escherichia” , ou o "E" de E. coli - explicou que uma esponja da pia da cozinha é o lar de milhares de vezes mais bactérias do que um assento de banheiro. Além disso, 10% dos panos de prato usados pelas famílias contêm salmonela.
Depois de brincar com amiguinhos, as crianças têm mais bactérias fecais em suas mãos do que uma pessoa ao sair de um banheiro público. Aqueles banheiros, por sinal, dispersam tantas gotas a cada descarga, que Gerba compara sua dispersão aos fogos de "Quatro de Julho". E todas as piscinas públicas que ele já testou continham vírus causadores de doenças.
Em resposta a estes dados, mais de 700 produtos prometem ajudar os consumidores a matar as bactérias, fungos e vírus em suas casas e locais de trabalho, desde as luzes ultravioleta para matar bactérias da escova de dentes, as máquinas de lavar louça que superaquecem os talheres e até capachos especialmente tratados. Três quartos de todos os americanos usam seis ou mais produtos antimicrobianos por dia.
Mesmo antes do surto do vírus H1N1, produtos de álcool em gel como o da marca Purell registrou 53% de crescimento anual de vendas, e os americanos gastaram 117 milhões dólares ao ano neles. Com o advento da pandemia da gripe H1N1 no ano passado, a fobia aos germes nacional aumentou ainda mais. O website dos Centros para Controle da Gripe recomendam regularmente desinfecção dos balcões de cozinha, móveis de quarto, brinquedos e de quaisquer outras "superfícies". Em termos de comercialização, os consumidores foram estimulados a aumentar a rotina de limpeza dos lares.
Profissionais da saúde aconselham exaustivamente a lavagem freqüente das mãos com sabonetes para lutar contra a gripe. Fabricantes de sabão e desinfetante fizeram campanhas publicitárias em massa para incentivar a lavagem das mãos com mais frequência. Tais produtos, os seus fabricantes prometem, podem ajudar às famílias contra a sujeira ao seu redor. O slogan da Purell (álcool em gel) convida, melancolicamente, os germofóbicos, presumivelmente paralisados pelo medo, a "imaginar um mundo palpável".
No entanto, os dados contam uma história menos convincentes sobre desinfetantes como Purell. Em 2005, na sede de Boston, médicos publicaram o primeiro ensaio clínico de desinfetantes de mãos a base de álcool em casas e cadastrou cerca de 300 famílias com crianças em creches. Durante cinco meses, metade dessas famílias ganharam desinfetante para as mãos e seguiram uma rigorosa rotina higiênica. Mas a propagação de infecções respiratórias nas casas não mudou, um resultado que "surpreendeu um pouco" os investigadores.
Um estudo da Universidade Columbia também não encontrou uma redução nas infecções comuns entre as famílias da cidade de interior, para as quais foram distribuídos gratuitamente sabonetes antibacterianos, detergentes e produtos de limpeza. No mesmo ano, o epidemiologista da Universidade de Michigan, Allison Aiello recolheu dados sobre a higiene das mãos para o FDA (Food and Drug Administration) e apontou que três em cada quatro estudos mostraram que o álcool em gel não preveniu infecções respiratórias.
Então, em 2008, o grupo de Boston repetiu o estudo, desta vez em escolas de ensino fundamental e distribuiu gratuitamente lenços desinfetantes Clorox para as salas de aula. Mais uma vez, a taxa de infecções respiratórias manteve-se inalterada, embora a taxa de infecções gastrointestinais, que são menos comuns do que as infecções respiratórias diminuíram um pouco.
Finalmente, em Outubro passado, um relatório encomendado pela Agência de Saúde Pública do Canadá concluiu que não há evidências de que as práticas vigorosas de higiene das mãos podem prevenir a transmissão da gripe.
Por que, então, muitas pessoas acham que o uso generalizado de gel desinfetante como o Purell são a “pedra angular” para prevenção contra a gripe? Para ter certeza, lavar as mãos pode salvar vidas em ambientes médicos. Em 1847, o doutor húngaro Ignaz Semmelweis descobriu que lavar as mãos com cloro entre partos praticamente eliminava infecções fatais em parturientes. Seus colegas o ignoram e depois o internaram num hospital psiquiátrico, onde foi espancado até a morte pelos guardas.
Hoje, numerosos estudos modernos mostram que, em estudos aleatórios, a lavagem minuciosa das mãos, quando conjugada com outras medidas de controle de infecção como o uniforme cirúrgico e luvas descartáveis reduzem a taxa de infecções, potencialmente letais, durante a cirurgia e permanência em unidades de cuidados intensivos.
Mas, nos hospitais, fora destes ensaios clínicos, apenas metade dos médicos e enfermeiros limpam regularmente as mãos antes de cuidar do paciente, apesar da ampla publicidade. Mais preocupante: nos hospitais onde realizaram enormes esforços educacionais para aumentar a lavagem das mãos de 40 a 70%, não houve uma redução global das taxas de infecção. Mesmo em lugares altamente regulamentados, como hospitais, as promessas benéficas de lavar as mãos não se realizam.
Agora, isso não significa que devemos desistir de hospitais. Mas temos de ser realistas sobre o que gels como Purell podem fazer para combater a gripe em casa e em público. Para começar, o vírus da gripe se espalha principalmente através de gotículas no ar (por exemplo, do espirro) – não por mãos sujas ou superfícies, o que limita o papel dos gels Purell. Provavelmente não teria importância, mesmo que a gripe seja transferida no contato da mão, que é como a maioria dos vírus se espalha. Embora a Purell mate os vírus no laboratório, desinfetantes não param a sua propagação no mundo real. Em média uma criança toca sua boca e nariz a cada três minutos, e ambos os adultos e as crianças entram em contato com cerca de 30 objetos diferentes a cada minuto. Mesmo os hospitais não conseguem que os funcionários utilizem o gel antes de ver os pacientes, é impossível para os pais, professores ou lavar as mãos de uma criança 20 vezes por hora.
Fornecedores de produtos antimicrobianos gostam de saciar nossas preocupações sobre os germes que nos cercam. Durante a pandemia de H1N1, as agências de saúde pública incentivaram o marketing apesar da evidência dos produtos fazerem pouco para ajudar. É provável que utilizadores de desinfetantes falsamente acreditavam que estavam protegidos contra a gripe e, portanto, adiavam a vacinação, que é de longe a forma mais eficaz para impedir a sua propagação. De acordo com o Centers for Disease Control, apenas um em cada cinco americanos foram vacinados no início de 2010 – e apenas um em cada quatro trabalhadores de saúde e pacientes de alto risco.
Assim, você pode acreditar em tudo que se fala em germe e acabar como o obsessivo-compulsivo bilionário Howard Hughes. Ou você pode acompanhar os dados e tomar uma vacina contra a gripe, lavar as mãos com sensatez depois de usar o banheiro e próximo das refeições, e parar de desperdiçar o dinheiro com desinfetantes.
A menos, claro, que você trabalhe em um hospital.
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