Campinas/SP - Domingo, 22 de julho de 2018 Agência de Notícias e Editora Comunicativa Ltda.  
 
 
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Campinas-SP

 

EXTRA PAUTA

HISTORIAS DE UM REPORTER

CAPITULO I

Jornal Correio Popular 29 de novembro de 1979

CHAMADA DE CAPA

Nosso reporter ve a CCTC por dentro e por fora

Retratar com fidelidade como se desenvolvem as atividades, o regime de semi-escravidao em que vivem os funcionarios - motoristas, cobradores e de outros setores - da CCTC - Companhia Campineira de Transporte Coletivo, eh algo praticamente impossivel de conseguir. Mais notadamnte pelo sistema burocratico da empresa no que tange ao fornecimento de informaçoes. Para tanto foi preciso que nosso reporter Gilberto Gonçalves se candidatassse a cobrador passando por todo processo de testes e treinamentos que na verdade nao significa nada satisfatorio para em seguida ser admitido. Trabalhando como cobrador durante dois dias, mais de 20 horas nosso reporter conta as dificuldades enfrentadas pelos cobradores e motoristas da CCTC, o problema do troco, que a empresa nunca fornece, o esquema do trabalho que força a trasbalhar até 15 por dia, as irregularidaddes dos passes utilizados por pessoas da Prefeitura e que o cobrador tem ordem rigorosa de não pedir a acarteirinha de identificaçao. Nosso reporter conta ainda o entrosamento entre motorista e cobrardor no sentido de dividir a quebrra de caixa q ue denominam 'boia'. Nessa trama toda, o cobrador da CCTC, levado pelas circunstancias, lesa o usuário, porem, o faz em conivencia coma empresa que não soh permite como falita este abuso. (Páginas 24 e 25)

CAPITULO II

Pagina 24

Dos documentos a ficha de emprego, uma aventura

Reporter cobrador da CCTC? Em principiopareceu mesmo inviavel. Primeiramente porque era substimar demais o departamento pessoal da empresa. Os funcionarios perceberiam de imediato a trama. Alem do mais a carteira profissional exigida não poderia ser a do reporter eh evidente. O jeito foi pensar em conseguir toda documentação necessaria para a admissao. A primeira etapa da ideia foi posta entao em andamento. O reporter saiu em busca da documentaçao.

TER DUAS OU TRES CARTEIRAS PROFISSIONIAS E MUITO FACIL

Como era necessário uma nova carteira profissional, era, consequentemente, imprescidivel obte-la. Nao foi tao dificil como parecia. No dia 31 de outubro o reporter rumou para a DRT Campinas, situadada prooxima ao Viaduto Miguel Vicdente Cury. Antes mesmo de chegar ao salao onde três ou quatro funcionarios expedem o documento, passando pela esquina da Rua Dr. Saravaiva foi abordado por alguns elementos. "Vai tirar foto xara? Faço na hora e carteira de saude também". Não deu ouvidos e seguiu colocando-se na fila que sempre antecede a plaquinha sustentada por um suporte branco onde se le: "Faça fila aqui". Como havia apenas umas tres pessoas a sua frente não demorou a ser chamado ao balcao de atendimento..

"Certificcado de reservista?" pediu o funcionario. Depois então perguntou: "E a primeira vez que tira carteira?". Mal respondida a pergunta ele ja preenchia o o espaço reservado aos dados pessoais do interessado. Nome: Gilberto Gonçalves; Local de nascimento: Santos/SP; Data de nascimento: 04/01/1951; Filiacao: Antonio Goncalves e Florinda de Souza Goncalves; Estado civil: solteiro; Ele deixou em branco os espaços Doc. No.; Fls; Liv; Registro Civil; Outros Docs; e depois continuou. Situação militar: Certificado Militar No. 437905; Orgao; 2a. RM - Estado de S. Paulo; Data da emissao: 31/10/79. Depois colocou sua matrícula ou outro qualquer; 8346 e assinou.

Enquanto escrevia automaticamente comentou sobre a cidade de origem do reporter: "Quer dizer que voce então eh de Santos? Que terrinha boa hein. Como eh, vai pra la neste feriado (Finados)?" Pegou o rolinho de tinta e passou no dedo do reporter. Ofereceu a ficha de arquivo e a carteira parqa serem autenticadas comn a impressao digital e disse; "Pronto. Pode limpar a mão na estopa que esta naquela mesa. Instantes depois o reporter saia dali com sua carteira profissional No. 89525 - Serie 00013 - SP, emitida pela Secretaria de emprego e Salario e não mais pelo Departamento Nacional de Mao de Obra - Divisão de Identificação e Registro Profissional que emitiu sua anterior No. 38958 - Serie 273 de 08/03/1971.

CAPITULO III

Pagina 24

CARTEIRA DE SAUDE. DE SAUDE?

Foi o tempo em que uma Carteira de Saude podia realmente receber este nome. Hoje ela não passa de uma simples abreugrafia tirada por tecnicos nem sempre capazes e cujos impressos ficam aos montes numa gaveta, já assinados pelo medico responsavel, prontos prqa serem entregues. A maioria dos que se dedicam a este ramo, quase sempre denominado Instituto Bareugrafico, cobra normalmente 100 cruzeiros por uma "Carteira de Saude", mas, curiosiamente, o escritório do despachante "Ged", sitado em frente a garagem da CCTC, que trrabalha em conjunto como departamento pessoal, cobra apenas 50 cruizeiros.

O reporter rodou a cidade em busca de uma carteira tirada na hora. Num dos Institutos, se não fosse a presença de 'caçadores' de fregueses quwe ficam na esquina, o responsável pelo serviço teria fornecido uma abreugrafia de outra pessoa "que não voltou para buscar". Primeiro ele disse que só fazia pelo dobro do preço, depois pensou bem diante de tantos 'caçadores' e remendou: "Olha moço eu não vou poder quebrar seu galho hoje, mesmo tendo possibilidades pois os impressos já estão assinados e eu tenho muitas abreugrafias que não vieram buscar mas acontece que..." Seu olhar disse tudo, 2000 cruzeriros seria muito pouco para dividir com tanta gente. "Mas se voce for no IMA garanto que vc consegue". O reporter foi. Lá poer pouco nao convence a funcionaria quye trabalha sozinha durante todo o dia. A chegada de duas pessoas acabou atrapalhando tudo. Mesmo assim o reporter saiu como documento assinado. Ficou faltando só a abreugrafia. O problema foi resolvido, no entanto, utilizando a carteira já existente na empresa onde trabalha.

CAPITULO IV

Pagina 24

DEPOIS DOS DOCUMENTOS, AS FILAS...


Realmente não foi difícil colocar a documen tação em ordem. . A Carteira Profissional em" branco saiu com muita facilidade da DRT-Campinas. A de Saúde custou, pelo menos em dinheiro, um pouco mais: 100 cruzeiros. Todos os outros documentos - Carteira de Identidade, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e o Cartão de Identificação do Contribuinte (CIC) - estavam em ordem a. em poder do repórter. Restava apenas se apresentar na empresa e tentar preencher a ficha de solicitação de emprego, esperando que nenhum funcionário desse pela coisa.
Seguindo a orientação fornecida através de um telefonema por um funcionário da CCTC, o repórter se apresentou, munido de todos os documentos, na portaria da firma, na Vila Costa e Silva, no dia primeiro de novembro. A camisa esporte, aberta nopeito, de seu costume, foi trocada por uma mais modesta e fechada até o pescoço. A calça "US-TOP", de barra virada, deu lugar a outra, mais antiga, de "Tergal", boca meio larga e bolsos laterais e traseiros com botões. Nos pés, um "Kichute", sem meia. Como quem busca uma colocação para servir de salvação, com a barba por fazer e procurando falar o mínimo possível, chegou até o vigia e perguntou: "Cumé qui eu faço prá fichá como co-
brador?". Livrando o portão da corrente que im pede a passagem dos veículos, o guarda respondeu: "Olha, agora só a uma e meia. Isto se ainda estiverem precisando, pois hoje de manhã uns dez fizeram ficha. Volta aí a uma e meia".

CAPITULO V


NA FILA DOS DESESPERADOS ...


Mesmo tendo chegado antes da hora marcada, não . conseguiu mais que um 17.0 lugar na fila já existente próxima da cerca. Não demorou muito e ela já havia aumentando em mais alguns dez candidatos. O sol forte da tarde impacientava a todos, e a menor sombra, deixada pelos mourões, era quase de toda aproveitada. Muito falador, um mulato baixinho comentava suas aventuras à cata de emprego: "Malandro - dizia - olha, eu já passei umas
poucas e boas com este negócio de ser motorista de ônibus. Teve uma firma em São Paulo que logo no primeiro dia que eu cheguei lá para pedir emprego, já me colocaram do lado de uma mulher que queria trabalhar como cobradora. Levaram a gente para um ônibus. Saímos com um motorista e fize mos uma vez o trajeto para aprender. Na segunda vez já estávamos sozinhos. "Trabalhe quatro dias junto com aquela cobradora e até "transei" algumas
vezes com ela. Depois destes quatro dias a empresa mandou os dois embora. Era assim com todo mundo".
Ele não se cansava de falar e uma roda acabou sendo formada ao seu redor. "Depois dessa firma fui trabalhar corno motorista de micro-ôníbus. Maió pauleira, meu. Mas o que eu perdi nos quatro dias na outra empresa eu recuperei nesta aí. Roubava pacas o patrão. O ônibus não tinha borboleta e quem cobrava era eu mesmo. Fiquei só uma sema na, mas o que eu malhei valeu por um mês. Aí eu me mandei. Agora quero ver se eu entro aqui. Dizem que não é difícil". A falação do mulatinho acabou fazendo o tempo passar mais depressa. Ó sol já estava bem mais forte e alguns atravessaram a rua para aproveitar a sombra da árvore.
Atrás do repórter alguém perguntou: "Será que nóis fichamos hoje? Eu não tô aguentando mais este sol na minha cabeça". O repórter preferiu não falar nada. Por volta das três horas da tarde, o vigia chegou próximo do pessoal e quase gritando disse: "Olha, pessoal, hoje não vão fichar mais nin guém. Quem quiser voltar segunda-feira pode, mas não é nada garantido". Algumas reclamações fize ram o guarda frisar: "Eu não posso fazer nada. Eu
recebo ordens lá de dentro. Eu só cumpro o que me mandam fazer. Quem quiser voltar segunda, pode voltar, pois hoje não tem mais ficha". Desa nimados, todos deixaram o local, mas muitos ainda continuaram reclamando.

A FILA, SEMPRE EXTENSA...

Depois de um fim de semana prolongado pe 10 feriado do dia 2 (Finados), a segunda-feira segujnte transformou-se num dia. muito mais que normalmente, propício à busca de empregos. Não eram oito horas ainda, faltava bem uns vinte minutos e, no entanto, onze pessoas já estavam na fila. Desta vez o repórter conseguira uma posição pouco melhor, mas era quase certo que não conseguiria chegar até a ficha novamente. Existe uma norma que faz entrar sempre os dez primeiros da fila. Os que sobram, aguardam qualquer pro blema com um destes dez, voltam no período da tarde ou no dia seguinte. Como na vez anterior alguns falavam muito mais que os outros. Nessa ocasião foi um rapaz, trajes slmples mas muito asseado. Ele contava as experiência que tivera como vigia de uma firma no Paraná - Estado que parece ser o maior fornecedor de mão -de-obra como cobrador e motorista para a CCT.


"Eu não quero mais saber de ser vigia, nem mes mo sabendo que eles estão precisando aí. O guarda já falou que seu eu quiser fazer ficha para vigia eu entro hoje mesmo, mas eu não quero não. Lá no Paraná elf trabalhei de vigia dois anos e se como é de responsabilidade. Já imaginou se al guém entra aí e rouba tudo e a gente nem vê? Tá danado sô! Eu quero ver se pego mesmo de motorista. Vigia num quero nem saber. Eu pedi de missão na firma lá do Paraná porque um amigo meu ficou amarrado quase a noite toda e só num mataram ele por pouco. Quando eu soube num quis mais saber". Os outros ouviam atentos. De repente, o vigia da CCTe fala ao pessoal: "Os dez
prímeiros podem entrar. Os outros se quisserem esperar podem, senão podem voltar a tarde. Muita gente insistiu com o guarda ele disse a mesma coisa outra vez: "Eu só recebo ordens. Nao mando do nada ... "

CAPITULO VI

"ENFIM, A FICHA..."

Foi só depois de vários dias, enfrentando a "fila dos desesperados" e resolvendo chegar lá antes mesmo do sol nascer que o repórter conseguiu enfim chegar até a ficha. Ele era o .segundo da fila e novamente só entraram dez, entre eles apenas uma mulher. Logo ao passar pelo portão ela recebeu o primeiro gracejo: "É, parece que voce vai dar uma bela cobradora", disse o guarda, completando depois; "Acho até que eu vou ser seu motorista". Ela nada disse, mas devolveu um sorriso. Caminharam todos até a sala de testes. Uma pequena divisão do departamento pessoal servida de 12 cadeiras encostadas às paredes e uma mesinha ao centro. Sentado à mesas Paulo, o "aplícador" de testes.

Grosseiramente e com sotaque de nortista mandou que todos fossem sentando. Instantes depois ordenou com ar de superioridade: "Todo mundo com carteira profissional e certificado de reservista na mão". Para um senhor que lhe apresentou a carteira e o título ao invés do certificado disse: "Cê é burro sô, eu disse certificado de reservista e isto é título de eleitor". A um outro que lhe entregou a êarteíra cheia de documentos, quase gritou: "Eu falei só a carteira e o certifica do, não este montão de papel. Tira isto tudo daí". Entregou a todos a ficha de testes. Uma pequena folha de papel com o timbre da-CCTC, onde deveriam ser colocados alguns dados pessoais e realizadas as três contas que compõem o teste: uma de somar com três parcelas, uma de subtrair e uma de multiplicar. A dificuldade de muitos era visível em realizar as operações e um fato curioso pôde ser observado. Um senhor, sentado ao lado do réporter,
escrevia totalmente fora das linhas e, ainda assim, antes de escrever cada palavra, levava a ficha bem próxímà dos olhos. O outro sentado ao lado dele, percebendo o drama, perguntou:

"O senhor não usa óculos?". "Eu preciso usar mas não tenho dinheiro para comprar" respondeu ele. O que perguntara levou a mão ao rosto, tirou o ócu los que usava e estendeu ao companheiro. Este, ao colocá-Ia, sorriu e exclamou entusiasmado: "Puxa, como melhorou" . Eles ficaram até o fim do teste trocando o óculos um com o outro.

CAPITULO VII

DEPOIS DAS CONTAS, OUTRA FICHA ..

Termínadas ~ três operações, a folha era entregue eo rapaz que ficava sentado ao centro da sala, sempre desviando seu olhar para à futura cobradora. Houve até um momento em que ele lhe perguntou: "Qualquer dificuldades pode me perguntar viu? Você é casadal". A outra ficha era propriamente a de solicitação de emprego. Dados pessoais completos, eartínha pedindo emprego, números de documentos, nomes de pessoas conhecidas em Campinas, etc. O repórter entregou esta ficha com alguns espaços em branco. O rapaz exigiu que ele escrevesse "sim" e "não" nestes espaços. Ao final, recebeu a ficha, olhou para 'o repórter e disse: "Você precisa cortar o cabelo. Vai cortar aqui ou na cidade?", "Na cidade", foi: a resposta, "Você sabe quaís são os documentos que precisa tirar xerox?" Depois da negativa disse: "Então passe ali no despachante em frente ao ponto de ônibus que ele lhe diz. Traga tudo amanhã. Venha com o cabe lo cortado".

Nada mais restava fazer senão ir ao despachante, instalado na sala de visita de uma casa ainda em construção. Pendurada no portão uma placa: "Escritório Gedê _ Guias para identidades, atestados e outros.
Lá, o rapaz que atende foi dizendo logo: "É do cumento para a CCTC?" Pegou um carimbo e o estampou num pequeno pedaço de papel. Todos os documentos que precisavam de xerox e os que ainda deveriam ser feitos estavam ali relacionados. "As xerox ficam em 30 cruzeiros" (apenas 4 documentos) o atestado de antecedentes nós tiramos na hora, fica em 100 cruzeiros, a carteira de saúde também fica em 50 cruzeiros. Faço tudo por 180 cruzeiros". Como a carteira de sàúde o repórter já possuía, pediu só o atestado de antecedentes. Este não é feito na hora coisa nenhuma ... Um recado é passado ao DP da CCTC dizendo que "o. atestado do sr. Gilberto Gonçalves está sendo rovidenciado. Quando estiver pronto envio ao DP". Uma assinatura ilegível "válida" o documento. Estava agora tudo pronto para o devido registro. Antes porém o repórter passou mais uma vez pelas mãos do "nordestino" Paulo, para verificar Sé os documentos estavam mesmo em ordem e se o cabelo havia sido de fato cortado. "Tudo bem, pode ir no balcão para registrar", disse ele.

CAPITULO VIII

"ARBITRARIEDADE FACILITADA E PERMITIDA PELA CCTC..."

O cobrador da CCTC, leva:lo pelas circunstancias, lesa o usuario, porem, o faz em conivencia com a ernpresa que nao so permite, como facilita este abuso. As condiçoes de trabalho sao precáarias .. Nao ha hora para almoço e se o cobrador não quiser provocar atrasos na linha em que esta trabalhando, ele tera que ficar as dez, doze ou quinze horas sem ir a um "WC". Nada disto porem i mporta a empresa, afinal, dezenas de candidatos se apresentam diariamente para ocupar o cargo de cobrador.

A rotatividade desta mao-de obra  para esta atividade chega a ser tao grande que a empresa foi forçada a montar esquema especial de funcionamento para o seu departamento pessoal. Num salao enorme, mais de seis funcionarios atendem no balcao os que estao sendo admitidos - oito a dez por dia -"- bem como os que estão sendo demitidos – quatro a oito por dia, segundo informações de um faxineiro. Os que são admitidos' quase sempre passampor xacotas ou são, de pronto, apelidados. A espera pelo registro chega a ser angustiante, mas a necessidade faz com que a maioria dos que estao na sala pareça bastante paciente. A bandeja, com um enorme bule de cafe e carregada pelo faxineiro que vestiu um avental branco e passa pelo saguo sem dar importância aos que ali permanecem quase como que dizendo: "O cafe só para os funcionários".  

CAPITULO IX

"ADOCUMENTAÇÃO E REGISTO É ASSINADA EM BRANCO..."

Depois de passar pela. sala .de estes e comprcvar -que· a do cumentação exigida está em ordem, que o cabelo foi devidamente cortado e abarba rasoada , os candidados se apresentam no balcçao do depaartamento pessoal para o ergistro profissional. Um funcionari faciliauase mandando, que o interessado espere sentado. As poltronas da sala são como ban cos de ônibus e os cinzeiros, cheios de pontas de cigarros, algumas ainda acesas, ficam entre um estofado e outro. Entregue a documentacão e durante a espera, a alternativa é puxar papo com um dos diversos funcionários que sempre estão também na mesma sala - a maioria deles aguardando vez de acertar as contas - são emissionários. \ Numa das conversas com um cobrador, foi possível foi possívem ficar sabendo que os dois policiais militares que trabalham dentro da CCTC, entre outras funções, têm a de amendrontar os demitdos. Quando o funcionpario entra ali ele cita, quase mandando, que o eressado espere sentado. As ltronas da sala são como ban-os de ônibus e os cinzeiros, heios de pontas de cigarros, al mas ainda acesas, ficam entre m estofado e outro. Entregue a documentação e urante a espera, a alternativa é uxar papo com um dos diversos uncionários que sempre estão também na mesma sala - a ioria deles aguardando vez de acertar as contas - são demis síonáríos. \ Numa das conversas com um cobrador, foi possível ficar sabendo que os dois policiais militares que trabalham dentro da CCTC, entre outras funções, têm a de amendrontar os demitidos.

"Quamdo o funcionário vai ser mandado embora, ele entra naquela salinha alí - apontou para a porta de uma sala sítuada a esquerda de quem entra no departamento pessoal - para o acerto de contas. Os dois políciais entram juntos e ficam do lado do funcionário. Eles não dizem nada, mas só o medo que o cara fica ele assina os todos os papeis na mesma hora . O Dep quando ele vai ver, foi mandado embora sem direito a nada", contou o cobrador. Uma outra passagem tam bém ouvida na sala de espera do departamento pessoal; diz respeito a um cobrador que, ao ser mandado embora, exigiu o que tinha direito, como não quiseram dar, ele deu três tiros num funcionário da administra cão.
"Eu não vi, mas fiquei sabendo - conta um senhor que tem no peito uma plaqueta onde se lê"garagem" - dizem que o cara não quis saber de muita conversa. Quando- falaram para ele que iam pagar nada e mandaram ele embora, ele tirou um revólver da cinta e mandou bala no peito do funcionário". O faxínei ro passa por ali novamente já sem o avental branco e vai lim par os vidros. De repente um dos candidatos é chamado ao balcão. Os pri meiros papéis apresentados para assinar, são cartões de computa dores. Antes o funcionário coloca à caneta uns valores no espaço reservado para descontos. Num cartão ele escreve 30,00, no outro 50 ,00, no outro 135,00 e no último 225,00. Não é difícil descobrir que, mesmo com lei obri a firma a fornecer gratuí uniformes para seus funciionários quando ela exige "USO, a CCTC desconta em estes valores. Os 30, cruzeiros correspondem a gravata, os 55 cruzeiros da camisa, os 135 à calça e os 225 ao par de sapatos"Passo Doble" que só é entregue" ao novo funcionário depois de trinta dias do trabalho.

Entregue a documentacão e durante a espera, a alternativa é puxar papo com um dos diversos funcionários que sempre estão também na mesma sala - a maioria deles aguardando vez de acertar as contas - são demissionários. \ Numa das conversas com um cobrador, foi possível ficarr sabendo que os dois policiais militares que trabalham dentro da CCTC, entre outras funções, têm a de amendrontar os demititidos.

CAPITULO X

INSTRUÇÃO: 40 MINUTOS PARA PREPARAR UM COBRADOR


Alguns dos candidatos ainda chegam a comentar se o outro leu ou não o que estava escrito no contrato. Isso é praticamente impossível, pois o funcionário passa rapidamente as folhas para a assinatura e depois para a impressão digital tirada com tinta de carimbo. Além do que as folhas estão todas em branco. Alí mesmo o novo funcionário recebe seu número de matrícula que "deverá ser usado sempre que assinar qualquer papel dentro da firma",
Nosso repórter recebeu o núme r..9 25.583. Feito o registro, o candidato recebe, uma autorização para instrução. Esta é feita normalmente em dois períodos. Quem perde a de 13:30 horas pode fazer às 17 horas. Antes porém, o recebimento do uniforme. O almoxarife olha para o novo funcionário mede "a olhos" sua cintura e seu colarinho, para depois entregar a calça, camisa e gravata. Os candidatos a motoristas são dispenados para retornarem no dia seguinte.. Os cobradore ficam para instrução. " Ela é fe ita numa pequena sala de aula e não dura mais que 40 minutos. Ali o cobrador fica sabendo tudo que é obrigado fazer. Nada porém de seus direitos, regalias ou vantagens.

Os instrutores são os despachantes, uma função dentro da empresa, acima do fiscal. Hermegil é um deles e ministrou a instrução ao repórter do Correio Popular. Sua maior preocupa ção foi mostrar aos cinco operações os passes normalmente utilizados nos ' ônibus, ressaltando sempre que os passes da prefeitura "têm passagem livre e vocês não devem nunca pedir ídentífícação à pessoa. Se vocês pedirem vão fiear em situação complicada. Quase ninguém usa este passe é da prefeitura e dá um galho danado pedir a identificação. Não peçam nunca" .

. O despachante diz tudo que o cobrador tem a fazer.' "Conferir o inicial da borboleta, ver se tem vassoura debaixo do banco, verificar vidros e bancos, ajudar passageiros idosos ou com crianças, ser cordial e tratar bem a todos.
Ajudar sempre o motorista durante as manobras, coletar testemunhas (de três a cinco) em caso de qualquer acidente - (se vocês não fizerem isto vão arrumar encrenca) - não deixar ninguém viajar com ferramentas de ponta. nem
bebados, tirar o eneerrante .em cada fim de viagem, não beber álcool em bar com o uniforme; exigir identidade para todas as pessoas que apresentarem passes (mas nunca para os que derem passes da prefeitura), não descer
do ônibus em ponto final à noite e, com relação ao troco, nunca deixar de fornecer troco ao passageiro se vocês tiverem".


O Artigo 16 do Contrato de Concessão dos Serviços de Transporte Coletivo por Auto-ônibus firmado entre CCTC e prefeitura diz o seguinte: "Os cobradores deverão ter permanentemente, troco suficiente para' atender aos pa gamentos com cédulas de até Cr$ 50,00" e o Parágrafo Unico, completa: "A empresa fará afixar em seus veículos avisos referentes a este Artigo". Quase nenhum ônibus possui o aviso. Sobre o troco, os instrutores dizem aos no-
vos cobradores: "A empresa não fornece troco. Vocês vão sair daqui com a caixinha vazia e têm que se virar" . Depois destas orientações os cobradores estão prontos para sairem trabalhando. Mesmo durante o rigoroso inverno que faz em Campinas, a em presa não fornece agasalhos e exige do funcionário que use blusa aberta na frente, azul - marinho ou preta. No primeiro mês, ela não entrega o sapato ao funcionário mas exige, sapato de couro - "não pode ser tênis ou outro tipo destes" - preto e tem que ser usado com meia. Ela não dá cínto , mas obriga seu uso, devendo ser de couro e preto. Não exis te uniforme especial para as cobradoras. Elas usam o mesmo que os homens, inclusive a gravata e a calça.

CAPITULO XI

MUITO FUTEBOL E POUCA MOEDA

O dia do cobrador começa quando muita gente ainda nem foi para a cama. No caso dos que moram na periferia _ quase todos _ pois o que ganham mal dá para comer: Cr$ 14,56 por hora que, calculados sobre 240 horas mensais perfazem um ordenado de Cr$ 3.544,40 _ o dia começa mesmo às 2H15M quando o "Navio Negreiro" percorre os bairros, servindo de condução que leva o pessoal até a garagem na Costa e Silva.

O regime de trabalhá é tão escravizante que eles mesmo apelidaram o ônibus que os conduz ao trabalho de "Navio Negreiro". Comenta-se, no entanto, que a empresa vem conseguindo evitar esta analogia, fazendo com que o ônibus seja chamado apenas de"Negreiro", a fim de desvirtuar a idéia central. Estes ônibus chegam na garagem por volta das 4H30M. As conversas são quase sempre as mesmas dentro deles' O futebol do dia anterior e a esperança de pegar uma linha que "dê muita gente e pingue pouca moeda de 50 centavos". Muitos vêm dormindo, sem esquecer, entretanto que a marmita está sobre as pernas. Nela vem a comida que servirá como almoço, depois de mais de dez horas de trabalho. MaIos ônibus chegam na garagem o pessoal já: está descendo. Correndo, alguns buscam o banheiro mal cheiroso e sem vasos sanitários. Outros chegam ainda amarrando os sapatos, abotoando camisa e calça e colocando a gravata. Uns poucos mais estabanados deixam cair pacotes, inclusive a marmita, que por vezes se abre, levando a perder o almoço do dia. Grande parte dos motoristas chega com o protetor de banco _ forro feito com pequenos pedaços de pano multicoloridos sobre a cabeca, protegendo-se do frio. A aglomeração, tanto na sala de cobradores como na de motoristas, chega a assustar. O cheiro de homem impregna o ar. Uns gritam. Outros riem,
empurram, dão cotoveladas e falam palavrões. Começa a chamada e o relatório passa de mão em mão até chegar a quem se destina. Dali para o pátio, a procura do carro identificado através do número existente no relatório.•

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FISCAIS E MOTORISTAS ENTRANDO NO RATEIO


No relatório do primeiro' dia de trabalho do re pórter o número do carro era 5511. O motorista, Arístides David, matrícula 25.327 e 45 dias de emprego. A hora de pegada, 4H30M e a de início, 5 horas no Jardim Santa Lúcia. As viagens foram extras. O ónibus vai vazio para o bairro e volta lotado para o centro. Na borboleta o número inicial: 99928; depois las três viagens, o final: 100101. O total em dinheiro deu Cr$ 571,50 e mesmo procurando dar troco a to das as 173 pessoas, ainda sobraram 15 cruzeiros. A.o final das três viagens, o motorista procurou saber com o "cobrador" se havia dado "bom". Como viu que o "cobrador" não entendia (se fez de desententido) desistiu e não forçou. Foi fácil saber, depois, que muitos motoristas exigem que o cobrador divida a "bóia" com ele. Assim também, contam alguns cobradores, que determinados fiscais têm a mania de tomar o dinheiro que sobra ao cobrador izendo que é para a "caixinha de fim de ano". Nada disso 'Chegou a ser apura do com veracidade •. Nosso reporter talvez pelo tempo que passou e mpregado não passou por esta trama. Na recebedoria da garagem a caixa mal contou o dinheiro, principalmnte o pacote com 10 notas de um cruzeiro. Além disso sobe as moedas de 50 centavos que passavam da wuantia do relatório ela disse: "Eu não poso fiar com um tostão aqui senão d´ao maior falho pra mim"

Muitos cobradores são de longe e grande parte vem do Paraná. Ismael é um deles. Estava "radiane de alegria pois havia recebido carta da esposa que ficou na casa do pai. Ela dizia, na carta que leu para os colegas: "Amor, fiquei muito contente em saber que você já está trabalhando de cobrador. Sonhei que você havia arrumado um bom emprego e parece que Deus ajudou.· Eu sei que aí tem muita mulher bonita, mas não esquece que aqui tem uma feia que te ama muito. "Não vejo a hora de ir para junto de você. Já arrumou a nossa casa?" . Este era o motivo de alegria. Ismael: um. motorista, de mudança, lhe oferecera casa onde morava por um aluguel de 800 cruzeiros deixando-lhe inclusive um mês pago adiantado alguns pertences que não mais seriam utilizados por ele.

 

 

 



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