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ENTREVISTA

 

SIMONE MENEZES  

“No Brasil, é tudo mais ou menos. Você me paga mais ou menos e eu toco mais ou menos”


Por Silvio Anunciação



Ela é apaixonada por Beethoven, mas acha injusto colocá-lo como músico preferido. Injustiça com Wagner, Bach, Händel, Carlos Gomes, Villa-Lobos e tantos outros. “Ele tem lugar especial entre as minhas preferências. Sou apaixonada por Beethoven porque, além de marco na história da música, ele foi muito importante na regência, área na qual atuo”.

A fã de Beethoven e maestrina da Orquestra Jovem de Campinas, Simone Menezes, começou a tocar piano aos seis anos. Ainda jovem foi prestar vestibular no curso de música da Unicamp decidida a ser flautista. Um problema, no entanto, a impediu de prestar o vestibular na área de flauta: “Na época do vestibular para música eu troquei de aparelho de dente e não dá pra você tocar flauta quando você muda de aparelho”, conta Simone, às risadas. “Bom, daí eu falei, vou prestar regência porque já trabalhava com isso e depois eu mudo o curso para flauta”. Mudou nada.

Atualmente, Simone está à frente da Orquestra Jovem de Campinas que desenvolve importantes projetos, todos com o objetivo de formar um público sinfônico jovem. Na entrevista, realizada dia 15 de dezembro de 2004, Menezes falou sobre a evolução da música erudita no país, seu desafios, problemas, além da importância de projetos para a música clássica na área social.

Como você analisa, atualmente, a evolução e valorização da música clássica no país?

A música está ligada diretamente a tradição de um povo. A tradição africana trouxe para o Brasil um determinado tipo de música que ficou arraigada na nossa história que é o samba, o maracatu e todas as músicas de origem negra. No caso da música sinfônica, ela surgiu na Europa no século 15 e se desenvolveu lá. Num determinado momento veio para o Brasil, mas teve o berço essencialmente na Europa. Aqui no país, ela foi dando os primeiros passos nos 100, 200 anos de descobrimento, mas ainda não se tornou efetivamente uma música que faz parte da nossa cultura como outros tipos de música. Isso por um lado é ruim porque a gente está no meio de um processo, mas por outro lado é bom porque aqui é um campo muito grande de desenvolvimento da música sinfônica. Na Europa, uma cidadezinha do tamanho de Paulínia tem duas orquestras sinfônicas. Aqui não. Cidades médias e grandes, na maioria das vezes, não tem uma orquestra. Então, o país é um campo de crescimento que já tem tido um boom nos últimos seis anos. Primeiro com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, que estabeleceu um padrão de qualidade a nível internacional e, depois, com o processo de reestruturação de várias orquestras sinfônicas do país e projetos de educação musical, como o Projeto Guri. Acredito que, em 20 anos, a música sinfônica brasileira vai dar o que falar.

De que forma a música clássica pode fazer parte da cultura dos brasileiros?

Tudo é educação. Por que o Brasil se dá tão bem no futebol? Porque desde criança a gente vê um menininho com a bola debaixo do braço no campo. É uma coisa que virou cultural. O samba, a mesma coisa. É isso que precisa acontecer na área de música erudita. E é isso que já está acontecendo. Os músicos que tiveram oportunidade de contato desde pequeno com a música e continuaram nessa carreira são hoje os violinistas que estão no mercado. Mas o país anda um pouco pra traz na formação, na educação de base. Se você conversar com seu avô ou com seus pais, eles tiveram aula de música e orfeão. Toda família de classe média tinha um piano, tem toda essa história. E hoje não. Hoje, um aluno chega na universidade sem saber o que é um violoncelo.

Qual sua opinião sobre o ensino de música clássica no ensino público, assim como já existiu o de filosofia?

Eu sou totalmente favorável. É assim que funciona o mundo. Canadá: quando o Canadá começou a ganhar medalha no esporte? Quando o país começou a colocar aulas natação, atletismo, etc, na escola pública. Da mesma forma é com a música. Se o país quer formar músico, tem que dar oportunidades para que tenham contato com a música desde criança. Eu comparo bastante a música com o esporte porque são coisas que necessitam a prática de uma vida. Não adianta uma pessoa com 20 anos resolver que vai ser violinista que não vai ser mesmo. Isso tem que começar cedo.

Com 20 anos então não dá?
Não (risos). Violinista é difícil. Aí pode pegar um outro instrumento.

O quê, por exemplo?
Uma clarinete dá para pegar. Uma flauta... Agora, instrumento de corda é realmente mais difícil.

Você citou alguns exemplos positivos na área de música sinfônica no país, como a reestruturação das orquestras, projetos educacionais... Gostaria que você retomasse um pouco isso.

O primeiro ponto é que a música clássica, quando bem feita, não tem como não gostar. E o Brasil ficou muito fechado, por muitos anos, e a qualidade da música feita aqui era baixa. Você ia para um concerto e ficava entediado. Realmente: a música não era boa, os instrumentistas não eram bons e tal. E aí, com o processo de globalização, aumentou a circulação de música, o número de músicos que vinham da Europa tocar aqui em festivais ou dar aulas, e o número de músicos daqui que iam tocar fora. Com isso se estabeleceu um padrão de qualidade, algo do tipo: ‘nossa isso é bom’. E aí teve que acontecer todo um processo de reestruturação. E o governo apoiou através de algumas leis, algumas secretarias... Na área de patrocínio e incentivos privados a música de qualidade também não fica sem. A Orquestra Jovem de Campinas, onde trabalho, ganhou recentemente patrocínio da Petrobrás junto a Lei Rouanet. Da mesma forma, diversas empresas têm apoiado esse tipo de iniciativa. É engraçado que na maioria dos casos a falta de apoio existe pelo desconhecimento. No caso da Lei Rouanet, por exemplo: o empresário tem que pagar R$100,00 de Imposto de Renda para o governo. Ele pode pagar R$ 6,00 para um projeto cultural e o restante para o governo. Vai ter o nome atrelado a um projeto cultural e nenhum custo a mais. E nem vai ter que prestar contas, pois quem que faz isso é o projeto cultural. São coisas simples e que trazem benefícios para todos os lados.

Quais são os desafios da música clássica no país hoje?

A primeira coisa que precisa ser estruturada é um projeto educacional. Se a gente não tem possibilidade de fazer um projeto educacional para o Brasil todo, coisas mais focadas precisam ser feitas. Um exemplo: uma prefeitura resolve criar uma escola de música, estimula empresas ao patrocínio, coloca um bom diretor artístico e quatro bons professores. Só. Já está feito o projeto. Esses professores começam com uma classe de 20 alunos e, em três, quatro anos, já tem uma geração de músicos. Isso aconteceu em Piracicaba e Rio Claro, cidades próximas de Campinas. Hoje, na Europa, tem músico que se formou em Rio Claro. Por que? Porque, em algum momento, um prefeito, um secretário de educação, teve essa visão e começou um projeto simples assim.

Em comparação com outros países, como você analisa a realidade brasileira com relação ao aprendizado e ensino da música clássica para jovens?

Nos outros países os jovens começam a estudar música mais cedo e com professores mais qualificados. É engraçado, quando um professor de fora do país está aqui. Quando ele vê um aluno daqui tocando celo, por exemplo, e esse aluno fala assim: ‘eu estou tocando há três anos’. O professor fala ‘eu não a acredito’. O brasileiro para a música é muito talentoso, consegue superar muitas dificuldades de aprendizado pelo talento. Se o brasileiro tivesse a oportunidade que um europeu tem, com o talento que temos, sem dúvida os melhores músicos do mundo iam sair do Brasil.

E com relação à infra-estrutura oferecida pelo país?
A infra-estrutura existe. Você precisa ter instrumentos e, no caso de uma orquestra, uma boa sala de ensaios, estantes adequadas e partituras que necessitam o pagamento de direitos autorais. Mas essa não é uma infra-estrutura muito barata e isso limita muito a música erudita no país. Em cidades menores os projetos de bandas são uma alternativa a isso. Muitas vezes os instrumentos de bandas são mais baratos porque tem qualidade inferior. Então, às vezes, uma cidade não tem condição de ter uma orquestra, mas ela tem uma banda. Já é alguma coisa.

E a valorização do músico? Um exemplo, acontecido no dia 16 de novembro desse ano, ilustra bem a pergunta. Nesta data, os músicos da Orquestra Municipal de São Paulo fizeram uma paralisação e um dos músicos fez um protesto devido aos salários atrasados...

Olha, esse é um exemplo. Mas vou dizer uma coisa que talvez possa parecer polêmica. Hoje, na área de música erudita, a gente tem mais emprego do que músicos. Eu vejo músico de 16, 17 anos, que não está pronto para o mercado de trabalho, precisa estudar muito ainda, mas já toca numa Orquestra aqui, noutra ali, aí depois, no final de semana, vai tocar em casamentos... Então, o músico está se profissionalizando muito cedo porque tem emprego. O problema é que fica uma coisa assim: tem muito emprego, mas como os músicos são fracos, o emprego vale pouco. Aí tem uma cultura que a gente tem que reverter. Temos que ter bons músicos para ganharem bem.

Mas você acha que é realmente isso: só pagam mal porque o músico não tem qualidade?

Um bom projeto de música erudita, por exemplo. Se ele é apresentado para um empresário que tem um pouco mais de visão o empresário vai apoiar. É igual a um bom músico pop. Se você está vendendo uma coisa boa, alguém vai comprar. Se não comprar no país, compra fora. E no caso de música erudita, é mais parecido com o esporte, com o futebol. Ou você joga, ou você não joga. No caso de música é a mesma coisa: ou você toca bem, ou você não toca. Então, as Orquestras mais fracas tocam menos, têm menos projetos interessantes, arrumam menos dinheiro. Eu desconheço bons projetos musicais do Brasil que ficam parados. Mas aí tem outro problema cultural: no Brasil, é tudo mais ou menos. Você me paga mais ou menos e eu toco mais ou menos.

Mas você não acha que o próprio brasileiro por, na maioria dos casos, ser desprovido dessa cultura de música erudita, é que não sabe avaliar e diferenciar músicos de qualidades dos ruins?

Eu tive esta impressão também por muito tempo. Por muito tempo eu falava assim: ‘não, é porque o público é leigo, não entende, tal...’ E aí, uma vez, um professor me chamou a atenção para o seguinte: ‘o público não é leigo não. Ele vê muito bem. Ele não vê com essa técnica que a gente vê. Mas ele consegue avaliar muito bem’. Quando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo começou a reestruturação tinha um público nos concertos de 300, 400 pessoas. E hoje, eles têm um público duas noites por semana de mais de 1000 pessoas. Nesse período não teve mais 2000 pessoas que estudaram música. É a qualidade da arte que começa a sensibilizar as pessoas e fazer com que elas se agrupem em torno de um projeto de qualidade.

Como os músicos eruditos brasileiros são vistos no exterior?

Nos festivais aqui, a gente tem bastante contato com músicos europeus. A primeira coisa é que, quando você fala de Brasil, os olhos deles brilham. Somos um país muito querido lá fora. E também reconhecido como um país muito musical, especialmente pela qualidade da música popular. Eles vêem no Brasil um lugar onde tem muita gente talentosa e pouca qualidade de ensino. Quando estão aqui, em algum festival, eles ficam tão entusiasmados com os alunos que convidam eles pra ir pra lá, fazer cursos com eles e tal. Porque eles vêem aqui um potencial musical muito grande, mas ao mesmo tempo essa falta de estrutura, de oportunidade.

Vocês da Orquestra Jovem de Campinas vão fazer uma turnê por oito cidades. E o interessante é que o objetivo principal é se apresentar para públicos nunca tiveram a oportunidade de presenciar a apresentação de uma sinfônica. Como surgiu esta idéia e como você analisa a questão da música como um meio social?

Essa idéia surgiu quando a Orquestra da Unicamp foi fazer um concerto numa cidadezinha do interior. E no fim do concerto veio gente toda emocionada falar que nunca tinha assistido uma orquestra, que nunca tinha visto um instrumento de perto. Foi uma experiência muito legal porque essas pessoas nunca viram isso, mas como seres humanos, eles têm essa capacidade de apreciar a arte. E foi também uma experiência marcante para os jovens músicos que estavam ali. Há duas semanas a Orquestra Jovem fez o primeiro concerto da turnê em Apiaí, interior do estado de São Paulo. E lá, que não tinha teatro, o concerto foi feito na igreja matriz que estava lotada, cerca de 600 pessoas. E a experiência foi muito legal, a gente fez um concerto didático, apresentou para o público os instrumentos um por um. Daí veio o padre, bem velhinho, falando pra gente que agora ele podia morrer feliz porque ele já tinha visto uma orquestra (risos)...

Você falou um pouco da questão social mais sob o ponto de vista do público. Gostaria de saber com relação aos músicos. O menino pobre, por exemplo, que sonha ser músico, mas não tem dinheiro pra comprar o instrumento...

Eu volto a ressaltar um projeto importantíssimo, que é o Projeto Guri. Iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, o Projeto Guri começou com o ensino de instrumentos de orquestra na Febem. Do Projeto Guri saiu muita gente boa. E eles pegavam uma turminha pequena da Febem, compravam violinos e se aplicava o método Suzuki, na qual um professor dá aula pra 10 alunos. Normalmente é um professor por aluno, mas é um método mais caro. Esse projeto que iniciou há quase dez anos está dando muito certo no país, porque atinge essa classe desfavorecida. É um projeto de inserção social. Na Unicamp, por exemplo, tem dois alunos que estavam no projeto da Febem e estão fazendo o curso de música. Quer dizer, eles jamais entrariam numa universidade e a música proporcionou isso a eles.

Conte um pouco sobre o surgimento da Orquestra Jovem de Campinas, da qual você é maestrina.

Uma cidade como Campinas, em outros países do mundo, comporta umas três ou quatro orquestras jovens ligadas a universidades e escolas. Campinas teve, há pouco mais de 15 anos, uma orquestra jovem muito forte, ligada até a Orquestra Municipal de Campinas. Inclusive essa orquestra surgiu da casa do ex-prefeito morto Toninho [Antônio da Costa Santos]. Muitos músicos, hoje, da Orquestra de Campinas, foram músicos dessa orquestra jovem. E aí por algum motivo ela acabou e Campinas ficou mais de 10 anos sem ter algum projeto nessa área. Então, quando eu estava terminado minha graduação na Unicamp, surgiu a idéia da gente montar um concerto. Tínhamos uma turma de instrumentistas muito forte, muito unida. Foi muito interessante o concerto e o coordenador do Núcleo de Difusão Cultural da Unicamp (NIDIC) falou que se a gente quisesse continuar o projeto a Unicamp daria a infra-estrutura de local e tal... Demos continuidade ao projeto e a Orquestra está aí, depois de dois anos e meio, só crescendo. Conseguimos vários apoios, do Sesi, da CPFL e, mais recentemente, da Petrobrás.

Outras informações da Orquestra Jovem de Campinas no endereço: http://www.unicamp.br/nidic/ojc/ojc.htm

 


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